MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

A indiferença é medonha.

A indiferença é medonha porque não grita. Não bate portas. Não ameaça. Apenas retira presença. E chega em silêncio.

Não se ouve. Não parte nada. Só passa ao lado.

A indiferença é medonha porque não grita. Não bate portas. Não ameaça. Apenas retira presença. E chega em silêncio.

A raiva ainda reconhece o outro. Discute, reage, acusa.

A indiferença faz pior: apaga. Transforma em ruído de fundo. Em paisagem.

Vivemos a elogiar o distanciamento. A arte moderna de passar ao lado sem peso na consciência.

A indiferença começa em pequeno formato. Depois cresce. E quando damos conta, já há injustiças inteiras a acontecer diante de reações serenas.

O contrário do amor não é o ódio. É o desinteresse. Porque onde nada nos toca, nada nos move.

A indiferença é medonha por isso: não destrói de imediato. Corrói lentamente a ideia de comunidade, até sobrar apenas gente lado a lado, profundamente sozinha.

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