MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

O livro cria [o] tempo.

O livro não ocupa o tempo que nos sobra. Cria o tempo que de outra forma não existiria.

Existe a ideia de que ler é aquilo que fazemos quando temos tempo. Errado.

Como se o livro fosse uma espécie de luxo reservado aos momentos vazios. Como se a leitura fosse uma atividade que entra apenas quando todas as outras já estão terminadas. Como se fosse o penetra do tempo disponível.

Mas é precisamente o contrário.

 

O livro não ocupa o tempo que sobra. O livro cria o tempo que de outra forma não existiria.

Uma diferença. Pequena. Mas que muda tudo.

Porque, na verdade, não temos falta de tempo. Temos falta de pedaços de tempo que sejam realmente nossos. O dia está cheio, mas nunca está inteiro. Há uma sequência constante de interrupções, tarefas, respostas, notificações, decisões e pequenas urgências que se acumulam até transformar horas em fragmentos.

 

Temos tempo para tudo o que exige a nossa atenção imediata.

Temos tempo para mensagens, para reuniões, para notícias, para vídeos de trinta segundos, para verificar coisas que não precisavam de ser verificadas. Temos tempo para consumir centenas de estímulos, mas dizemos que não temos tempo para ler dez páginas.

Não. O problema não é a quantidade de tempo. Até porque o livro obriga o tempo a aparecer. Coisa estranha neste mundo obcecado por velocidade.

 

Quando abrimos o livro, não estamos a preencher minutos. Estamos a criar a zona onde os minutos deixam de ser apenas passagem.

É que a leitura não acontece dentro do tempo. Reorganiza-o.

Num dia comum, a nossa atenção é constantemente partida.

Começamos uma coisa, mudamos para outra, interrompemos, voltamos, esquecemos. A cabeça fica cheia de pequenos ficheiros abertos, nenhum completamente fechado.

O livro faz o movimento oposto. Puxa-nos para dentro de uma linha.

Uma página conduz à seguinte. Uma ideia desenvolve outra. Uma personagem transforma-se. Um argumento cresce. Uma pergunta encontra outra pergunta. Existe uma sequência. E essa sequência cria uma sensação quase extinta.

 

O livro pede uma decisão. Mais uma, é verdade. Porque ler é uma forma de resistência contra a ideia de que todos os minutos precisam de ser rentabilizado.

Mas não nos deixemos levar. A leitura não é uma fuga da realidade. Pelo contrário. Devolve realidade ao tempo. Não nos dá horas extra. Dá-nos outra relação com as horas que já existem.

 

Há atividades que consomem tempo. Outras, deixam o tempo mais pobre.

Felizmente com a leitura, jamais funciona assim. Mesmo quando lemos pouco, fica tanto. O livro continua a trabalhar mesmo após ter sido fechado.

Cria tempo de uma forma que nada mais o consegue.

 

E não há como esperar pelo momento certo para ler. Calmo. Silencioso. Sem interrupções. Esse momento não aparece. Porque o tempo não é encontrado. Éconstruído. Em traços gerais, é a diferença entre esperar que o dia tenha espaço e abrir espaço no dia.

 

Cinco páginas antes de dormir. Dez minutos enquanto se espera por alguém. Um capítulo durante uma pausa. Um livro na mala.

Não são grandes quantidades de tempo. Mas pequenas escolhas que dão pausas ao dia.

A leitura não compete com a minha vida. Entra nela. De forma simples.

 

E não. Não desapareço do mundo. Pelo contrário. Chego com mais referências. Mais perguntas. Mais ferramentas para compreender o que acontece à nossa volta.

 

Que nunca deixemos de ter tempo para ler. Porque é essa a sua maior utilidade.

Não nos ocupar [o] tempo. Criá-lo.

Bertrand.

 📸 Friends oil painting edition

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