MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

Queremos o impossível.

Se começa a parecer possível, deixa de ser aquilo que queríamos.

Geralmente não queremos verdadeiramente alcançar aquilo que dizemos querer. Queremos continuar a desejá-lo. Parece a mesma coisa. Não é.

É uma característica como outra qualquer. É humano.

 

O desejo e a conquista obedecem a regras diferentes. O desejo vive da distância. A conquista elimina-a.

É por isso que passamos a vida a dizer que queremos mudar de emprego. Escrever um livro. Aprender uma língua. Correr uma maratona. Abrir um negócio. Mudar de cidade.

Enquanto tudo isto permanece suficientemente longe, mantemos um brilho quase perfeito. Não existe desgaste. Obstáculos. Não existem compromissos.

Existe apenas a ideia. E as ideias têm vantagem sobre a realidade. Nunca falham.

 

O curioso acontece quando aquilo que parecia impossível começa finalmente a tornar-se possível.

É aí que o desejo muda de direção.

Quem sempre quis abrir uma empresa começa a descobrir novos riscos, novas dúvidas, novos argumentos para adiar.

Quem sempre quis publicar um livro termina o manuscrito. E aparece a vontade de o reescrever pela décima vez. Nunca está suficientemente bom.

Quem sempre sonhou viver junto ao mar encontra finalmente uma casa acessível. Mas começa a preocupar-se com a humidade, a falta de oferta cultural, a distância de tudo.

 

Nada disto é por acaso.

O impossível exerce uma atração especial precisamente porque nos protege da experiência.

Enquanto uma coisa é impossível, nada mais sabemos.

A imaginação nunca exige provas. A realidade exige. E é aí que o desejo começa frequentemente a recuar.

Porque, na verdade, há duas ambições diferentes. Conseguir. E continuar a sonhar.

Nem sempre percebemos qual delas domina.

 

Os objetivos impossíveis são extraordinariamente confortáveis. Não porque sejam fáceis, mas porque nunca chegam ao momento da avaliação.

Não podemos dizer que falhámos numa coisa que nunca tentámos realmente.

Enquanto o objetivo permanece inalcançável, tudo o resto se mantém intacto. Continuamos a ser a pessoa que um dia vai escrever um romance. E que abrirá um restaurante se tiver uma oportunidade.

 

Versões imaginárias de nós próprios que nunca cometem erros. Nunca tomam decisões erradas. Nunca descobrem que afinal eram só medianas. Nunca enfrentam críticas. Nem desiludem.

São perfeitas. Vivem exclusivamente na hipótese. Mas basta a hipótese transformar-se em possibilidade para a perfeição desaparecer.

 

Quando o impossível começa a aproximar-se, deixa de ser um sonho e transforma-se num projeto. E o projeto obriga a escolhas. Escolher significa desistir de alternativas. Aceitar limitações. Perceber que nenhuma conquista corresponde exatamente à fantasia que a antecedeu.

 

É precisamente neste momento que alteramos o objeto do desejo. Sem nos apercebermos. E o sonho passa a ser outro.

Não porque a realidade seja necessariamente má. Mas porque o cérebro precisa de restaurar a distância.

Aquilo que já conseguimos deixa de alimentar a expectativa. Uma das formas mais intensas de prazer. Alcançamos. Mas há mais. Melhor. E melhor.

E a sensação permanente é esta. Falta apenas mais uma coisa. E quando essa coisa chega, deixa imediatamente de ocupar o primeiro lugar.

Nós somos assim. É a nossa forma de funcionar.

Por isso, confundimos ambição com deslocação permanente.

Achamos que estamos a evoluir. Mas estamos apenas a mover a meta.

 

Melhorar e tornar impossível a satisfação. São coisas diferentes.

Melhorar é aumentar a qualidade daquilo que fazemos. Tornar impossível a satisfação é alterar constantemente o conceito para nunca termos de admitir que já chegámos.

 

É que chegar também assusta.

Enquanto existe um grande sonho, existe também uma caminhada. Estamos a preparar-nos. Estamos quase.

Quando o objetivo desaparece, sobra espaço.

Quem sabe o que fazer com esse espaço?

 

Precisamos de manter sempre um impossível na linha do horizonte.

Não pretendemos alcançá-lo. Só não sabemos viver sem persegui-lo.

Mas uma vida construída apenas sobre impossíveis nunca permite experimentar plenamente aquilo que já foi conseguido.

Tudo parece provisório. Insuficiente. Um degrau para outra coisa. O presente transforma-se numa sala de espera permanente.

Entretanto, a vida acontece exatamente onde não estamos a olhar.

 

Não deixemos de desejar grandes coisas. Reconheçamos, apenas, quando o desejo começa a fugir porque a realidade se está a aproximar.

Nunca desistimos de um sonho por ele ser impossível. Desistimos precisamente quando percebemos que, afinal, podia acontecer.

 

Enquanto o impossível alimenta a imaginação, o possível exige compromisso. É mais exigente.

 

E tem uma característica que o desejo nunca terá: obriga-nos, finalmente, a descobrir quem somos quando deixamos de imaginar quem poderíamos ser.

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