Mas há mais.
Não são só as limitações. É a ilusão humana. A ideia de que um dia, finalmente, vamos chegar a uma fase da vida em que tudo estará alinhado.
O momento em que teremos tempo. Dinheiro. Coragem. E não haverá obstáculos. Poderemos, finalmente, fazer aquilo que queremos.
Só que esse momento tem o talento especial para nunca chegar.
Quando somos pequenos, acreditamos que a liberdade está no futuro.
Queremos crescer. Porque confundimos crescer com poder. Achamos que os adultos têm uma espécie de passe mágico. Vão onde querem à hora que querem. Observamo-los com uma mistura de admiração e impaciência. “Quando eu for grande…”.
O que ainda não sabemos é que os adultos também vivem dentro de regras. Apenas trocaram algumas.
Depois chega a adolescência. A idade em que tudo parece urgente.
Queremos ser nós próprios, mas ainda estamos a descobrir quem somos. Queremos independência, mas precisamos de aprovação. Queremos mudar o mundo, mas pedimos autorização para sair. Queremos ser diferentes, mas temos medo de não pertencer.
Vivemos na fronteira. Já não somos crianças, mas ainda não temos todas as ferramentas de adulto.
E também aqui não fazemos exatamente o que queremos.
Depois vem a idade adulta.
Aquela fase que durante anos imaginámos como o território da liberdade absoluta. Mas descobrimos que afinal vem com uma lista de responsabilidades. Desconcertantes.
O tempo passa a ser dividido em blocos. Horas de trabalho. Horas de deslocação. Horas para cuidar de outros. Horas para resolver problemas. Horas para recuperar da falta de horas.
Uma estranha contradição. Temos poder de decisão, mas falta-nos tempo para decidir. Mais do que nunca.
E afinal não fazemos o que queremos em nenhuma idade. Vivemos numa negociação constante entre desejo e realidade. Vontade e consequência.
Entre aquilo que queremos agora e aquilo que sabemos que precisamos de preservar para o futuro.
Tal como tantas vezes queremos o resultado e nem sempre queremos o processo.
E acabamos por perceber que a vida inteira é feita de escolhas incompletas. Nunca escolhemos tudo. Escolhemos algumas coisas. E ao escolhermos algumas coisas, deixamos outras para trás. Uma coleção de portas abertas e portas fechadas. Sem portas secretas onde todas ficam abertas ao mesmo tempo.
Sobre o futuro, acabamos por perceber que é um lugar confortável para colocar sonhos. Porque lá eles não falham. No futuro, tudo é possível. E passamos a vida a preparar-nos para viver.
Preparamo-nos financeiramente. Emocionalmente. Profissionalmente.
E, quando damos por isso, passámos anos a preparar a mala sem nunca fazer a viagem.
Não queiramos estar a fazer tudo o que queremos. Ninguém está.
Queiramos estar a fazer algumas das coisas que realmente importam. Não precisamos de ser uma realização constante de desejos. Precisamos de ser coerentes, apenas. E já não é nada mau.
Mas daquilo que fizermos, devemos querer reconhecer-nos.
