Nunca tivemos tantos objetos.Tantas ferramentas para facilitar a vida. Ganhar tempo. Trabalhar melhor. Descansar mais. Viajar. Cozinhar. Dormir. Organizar.
Ainda assim, nunca foi tão comum sentir que passamos o dia inteiro a servir aquilo que comprámos.
A promessa é simples. As coisas existem para nos libertar.
Mas o resultado é frequentemente o contrário.
As coisas começam a exigir manutenção. E, sem darmos por isso, deixamos de ser os utilizadores para passarmos a ser os funcionários daquilo que possuímos.
Compramos uma casa e passamos muito tempo a cuidar dela.
Temos um jardim e ganhamos mais uma obrigação semanal.
Compramos um telemóvel para comunicar e acabamos por consultá-lo centenas de vezes por dia sem que ninguém tenha realmente algo para nos dizer.
Não é uma questão de consumo. É uma questão de relação.
Chegámos a acreditar que possuir mais objetos significa aumentar a liberdade. Hoje sabemos que cada objeto transporta um contrato.
Espaço. Tempo. Atenção. Atualizações. Reparações. Limpeza. Proteção. Seguro. Baterias. Cabos. Subscrições. Peças.
É curioso observar uma garagem. Cheia de objetos comprados precisamente para simplificar tarefas.
Máquinas para organizar. Caixas para arrumar. Prateleiras para guardar. Ferramentas para concertar.
Mas as coisas começam a produzir mais coisas. Até já não sabermos exatamente quem está ao serviço de quem.
Vivemos rodeados de coisas que falam antes de nós. E quanto mais deixamos que esses coisas nos definam, mais nos transformamos em pessoas descritas pelas coisas. E as coisas transformam-nos em coisa.
Mas somos os primeiros a tratar-nos como coisa.
Dizemos que estamos sem bateria.
Não são apenas metáforas. São a descrição da nossa forma de vida.
Quanto tempo do dia gastamos a cuidar de coisas? E de pessoas? Quanto tempo gastamos?
Ora essa, ma tecnologia nunca prometeu apenas facilitar tarefas. Prometeu reorganizar a vida. E conseguiu.
Nós é que sabemos muito sobre a manutenção dos objetos. Não tanto sobre a manutenção da atenção.
Sabemos comparar especificações técnicas. Não tanto comparar prioridades.
Sabemos escolher entre centenas de modelos. Não tanto se precisamos realmente de mais um.
O problema nunca foram as coisas. Continuam a ser extraordinárias. O problema é quando deixamos de lhes atribuir a função e lhes entregamos uma parte de nós.
Quando acabam por transformar-nos também em coisa.
📸 Erre Gálvez
