MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

As coisas transformam-nos em coisa.

Nunca tivemos tantos objetos.Tantas ferramentas para facilitar a vida. Ganhar tempo. Trabalhar melhor. Descansar mais. Viajar. Cozinhar. Dormir. Organizar.

Nunca tivemos tantos objetos.Tantas ferramentas para facilitar a vida. Ganhar tempo. Trabalhar melhor. Descansar mais. Viajar. Cozinhar. Dormir. Organizar.

Ainda assim, nunca foi tão comum sentir que passamos o dia inteiro a servir aquilo que comprámos.

 

A promessa é simples. As coisas existem para nos libertar.

Mas o resultado é frequentemente o contrário.

As coisas começam a exigir manutenção. E, sem darmos por isso, deixamos de ser os utilizadores para passarmos a ser os funcionários daquilo que possuímos.

 

Compramos uma casa e passamos muito tempo a cuidar dela.

Temos um jardim e ganhamos mais uma obrigação semanal.

Compramos um telemóvel para comunicar e acabamos por consultá-lo centenas de vezes por dia sem que ninguém tenha realmente algo para nos dizer.

Não é uma questão de consumo. É uma questão de relação.

 

Chegámos a acreditar que possuir mais objetos significa aumentar a liberdade. Hoje sabemos que cada objeto transporta um contrato. Tudo o que entra na nossa vida começa imediatamente a pedir alguma coisa.

Espaço. Tempo. Atenção. Atualizações. Reparações. Limpeza. Proteção. Seguro. Baterias. Cabos. Subscrições. Peças.

 

É curioso observar uma garagem. Cheia de objetos comprados precisamente para simplificar tarefas.

Máquinas para organizar. Caixas para arrumar. Prateleiras para guardar. Ferramentas para concertar. Uma parte significativa do espaço existe apenas para acomodar coisas que nos deviam facilitar a vida.

Mas as coisas começam a produzir mais coisas. Até já não sabermos exatamente quem está ao serviço de quem.

 

Vivemos rodeados de coisas que falam antes de nós. E quanto mais deixamos que esses coisas nos definam, mais nos transformamos em pessoas descritas pelas coisas. E as coisas transformam-nos em coisa. E a coisa, por ser coisa, é facilmente substituída.

 

Mas somos os primeiros a tratar-nos como coisa. 

Dizemos que estamos sem bateria. Precisamos de desligar. Fazer reset. Porque estamos em modo automático.

Não são apenas metáforas. São a descrição da nossa forma de vida. Sempre a gerir passwords, carregadores, aplicações, contratos, garantias, notificações, renovações automáticas, fotografias, ficheiros e equipamentos.

Quanto tempo do dia gastamos a cuidar de coisas? E de pessoas? Quanto tempo gastamos?

 

Ora essa, ma tecnologia nunca prometeu apenas facilitar tarefas. Prometeu reorganizar a vida. E conseguiu.

Nós é que sabemos muito sobre a manutenção dos objetos. Não tanto sobre a manutenção da atenção.

Sabemos comparar especificações técnicas. Não tanto comparar prioridades.

Sabemos escolher entre centenas de modelos. Não tanto se precisamos realmente de mais um.

 

O problema nunca foram as coisas. Continuam a ser extraordinárias. O problema é quando deixamos de lhes atribuir a função e lhes entregamos uma parte de nós.

 

Quando acabam por transformar-nos também em coisa.

 

📸 Erre Gálvez

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