MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

Graffitis.

São imagens que convocam o olhar. Às vezes emocionam. Outras vezes provocam. Quase sempre, têm mais a dizer do que qualquer exposição.

Há graffitis que nos obrigam a parar.

Estão em muros gastos. Prédios abandonados. Túneis esquecidos.

Não passam despercebidos. São imagens que convocam o olhar. Às vezes emocionam. Outras vezes provocam. Quase sempre, têm mais a dizer do que qualquer exposição.

São arte. E como qualquer arte, impõem-se.

Depois há os outros. Os das letras gordas. Ilegíveis. Feitas à pressa e por cima de tudo o que já lá estava. Camadas de tinta sobre outras tintas.

O objectivo deve ser apagar o que havia antes. Não criar. Não comunicar. Marcar presença, apenas. Graffitis que não dizem nada a ninguém. Mas estão por todo o lado. Uma urgência qualquer em deixar claro que alguém passou por ali. Com um conjunto de rabiscos pretensamente agressivos.

graffitis que salvam fachadas. E há outros que as condenam.

Os primeiros revelam técnica, intenção, sentido estético.

Os segundos são um grito num megafone desligado. Não comunicam. Não acrescentam. Gritam numa parede muda. 

Este é o paradoxo dos graffitis.  E o espaço público está a rebentar de ambos.

Gosto da arte urbana.

A arte urbana já nos provou e continua a provar que pode ser um canal de intervenção, de comentário social, de estética. 

Mas exige responsabilidade. Não é criminalizar ou proibir. É exigir critério. Como em tudo.

É possível que as cidades criem circuitos de paredes livres para artistas urbanos.

Já há experiências bem-sucedidas. Zonas rotativas, onde novos artistas pintam sobre trabalhos antigos, de forma organizada. Paredes vivas. Espaços de criação, não de vandalismo. Onde o graffiti faz parte.

Mas falta coragem para separar o trigo do joio. Exigência, selecção, critério. Espaços designados. Editais públicos que desafiem artistas a intervir nas paredes das escolas, hospitais, bairros. Não com o amadorismo do quem chegar primeiro risca. Elevar o espaço urbano, não torná-lo um depósito de vaidades mal resolvidas.

As ruas merecem mais do que gritos sem sentido. 

Merecem paredes que falem. Que nos olhem de volta. Que digam qualquer coisa que valha a pena ouvir.

A arte urbana é uma promessa de diálogo. Mas, como em qualquer diálogo, não basta abrir a boca. É preciso ter algo para dizer.

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