MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

O cérebro em fuga.

Como se a página fosse areia onde cada frase se enterra à medida que avança. O raciocínio perde-se. Foge. Tropeça.

Nervos em franja. A leitura torna-se impossível.

O livro está aberto, os olhos percorrem as linhas, mas não sobra nada na memória.

Como se a página fosse areia onde cada frase se enterra à medida que avança. O raciocínio perde-se. Foge. Tropeça.

Paradoxalmente, o telemóvel parece fácil. Saltamos de um vídeo para outro. De uma notícia curta para uma piada descartável. Não é um acaso.

A leitura exige que o cérebro baixe a frequência. Ajuste o ritmo. Entre em modo atenção sustentada.

E quando estamos nervosos, não há chão firme. O corpo está em modo de sobrevivência. Adrenalina no sangue. Coração a mais batidas por minuto. Respiração curta. O organismo grita: Há uma ameaça, resolve-a agora. 

A leitura é lenta demais para quem está à procura de saídas rápidas. E o sistema não tolera demoras.

O telemóvel oferece estímulos imediatos. Gratificações pequenas, mas rápidas. Migalhas de dopamina que parecem acalmar-nos. Não nos pede mais do que o deslizar superficial. É como mastigar açúcar em vez de fazer uma refeição.

Sacia no instante, mas não alimenta. Facilita. Um truque do cérebro ansioso. 

O telemóvel não resolve o nervosismo, mas embala-nos num zapping constante. 

Em troca, adia o encontro com o desconforto.

Deslizar o dedo no ecrã ilude-nos. Pelo contrário, ler, pensar, organizar palavras cruzadas... faz-nos encarar o ruído interno.

A leitura é linear. A ansiedade caótica.

E o livro não se adapta à turbulência interior. Obriga-nos a seguir a cadência de frases que já estão escritas. Alheias ao nosso ritmo descompassado.

O telemóvel, matreiro, é um espaço moldável.

Se estamos mais agitados, aceleramos os vídeos. Se nos sentimos inquietos, mudamos de App. O feed imita o nosso estado instável. Uma simbiose com o nervosismo.

E quanto mais nos entregamos a este consumo fragmentado, mais treinamos o cérebro para preferir o superficial. Criamos um músculo de dispersão. E quando finalmente queremos regressar ao livro, a mente já perdeu a musculatura da permanência.

Ler com os nervos em franja é escolher um caminho que não encaixa na urgência biológica. 

Exige ir contra o corpo. Sentar-se no desconforto. Respirar devagar até que a narrativa consiga abrir espaço.

Já o telemóvel é a versão chave na mão de uma brisa de ar fresco. Refresca, mas nunca chega a arrefecer.

No fundo, é a diferença entre anestesiar e atravessar.

O livro obriga a atravessar o turbilhão. O ecrã mantém-nos ocupados enquanto o turbilhão passa. [Ou cresce, em silêncio].

 

📸 Ryan Collins

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