MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

Conversas à beira-mar.

Enquanto falamos, vamos construindo o que a próxima onda vai desfazer.

Há um tipo de conversa que só acontece à beira-mar. 

Com a água a bater no tornozelo. 

O peso que passa de um pé para o outro.

A sensação da água fria, que sobe e desce. 

 

O gesto de enterrar os calcanhares na areia até formar um buraco.

Uma quase coreografia, sem intenção. Enquanto falamos, vamos construindo o que a próxima onda vai desfazer.

 

O vaivém do mar dita também o ritmo da conversa. As pausas coincidem com o rebentar da espuma. As frases ficam suspensas até a água recuar. E nesse compasso lento, diz-se o que noutro lugar ficaria preso. 

 

À beira-mar, a conversa é mais leve. Talvez porque a água nos recorda que nada fica intacto e que o que se diz à beira-mar não tem de durar. 

 

Sem darmos conta, enterramos os dedos na areia, levantamos pequenas muralhas, rimos do inesperado colapso quando a água invade. Um jogo dos pés infantil. Apenas a lembrança de que já fomos seres descomplicados.

Capazes de nos distrairmos durante horas com meia dúzia de gestos repetidos.

 

Cria-se um espaço para a conversa. As mãos ficam livres de gestos. Não há a obrigação de olhar nos olhos a cada frase. Fala-se com o corpo virado para o horizonte. E isso liberta.

 

O original neste cenário não é a paisagem. Conhecemos bem a nossa praia. O original é a posição em que ficamos perante o outro. Não frente a frente, como em quase todas as conversas da vida, mas lado a lado. Em paralelo. Com o mar a ocupar a dianteira.

 

Essa disposição muda tudo. A comunicação flui quase em segundo plano, como se fosse uma continuação do movimento da água.

É provavelmente o lugar mais honesto para conversar.

É nesta consciência de leveza que se instala a intimidade.

 

E quando regressamos, dificilmente nos lembramos de tudo o que foi dito. Mas lembramo-nos da sensação. O conteúdo pode dissipar-se, mas o corpo grava o registo. Talvez seja isso que precisamos tanto da experiência física de falar sem paredes. Sem mesa. Sem formalidade.

 

As conversas à beira-mar não resolvem nada, mas resolvem muito.

Não oferecem soluções, mas dão contexto.

O mar relativiza. Coloca-nos diante de uma escala onde os nossos problemas perdem dimensão.

 

A cada onda, percebemos que nada é tão sólido quanto acreditamos. Nem a areia debaixo dos pés. Nem as certezas que defendemos com zelo.

 

No fim, o essencial é o facto de à beira-mar, quando falamos, estamos também a escavar. Não só buracos na areia, mas pequenas aberturas dentro de nós. E essas fendas, por breves que sejam, ficam. São nelas que se deposita a memória.

 

É um cenário que não exige fotografias. Fica marcado por si só. E quem o viveu sabe. Algumas das conversas mais incríveis aconteceram com o mar a decidir se ficava ou recuava.

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