MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

É urgente viver encantado.

O encanto é a única cura possível para a inevitável angústia.

Gosto da ideia, mas tenho algumas reservas quanto à palavra encantado.

Demasiado próxima de fadas, bosques mágicos, cristais, frases escritas em letras douradas e pessoas que dizem que o universo sabe o que faz.

 

Não sei. Porque o encanto é bastante mais simples. E, sobretudo, muito mais prático.

 

Encanto é reparar. É isto. Reparar.

No café que está particularmente bom.

Na luz que entra pela janela às sete da tarde.

Na música.

Na conversa.

Na pessoa que nos faz rir.

No livro que faz mudar de ideias.

Na padaria onde o pão merece uma consideração especial.

 

Isto é viver encantado. E não exige nada de extraordinário.

 

Aliás, o encanto é precisamente a capacidade de encontrar alguma coisa extraordinária numa vida perfeitamente normal. Passamos tempo a mais à procura de coisas que nos façam felizes. Mas o encanto está um pouco antes disso.

Não é preciso procurar mais nada. É preciso olhar melhor para aquilo que já está aqui.

 

Temos uma tendência compreensível para achar que a vida vai começar mais tarde.

Quando acabarmos o curso.

Tivermos dinheiro.

Para aquela casa.

E filhos.

Quando eles crescerem.

Quando mudarmos de emprego.

E tivermos mais tempo.

Quando conseguirmos organizar a nossa vida.

 

Fazemos um esquema extraordinário e passamos anos a preparar-nos para começar a viver.

 

Só que o “mais tarde” já chegou. É agora.

Com as contas.

Com a roupa para lavar.

Com o supermercado.

Os pais a envelhecer.

O corpo que já não recupera de uma noite mal dormida como recuperava antigamente.

Com tudo isto.

 

E, ainda assim, há café.

Há sol.

Há música.

Há pessoas.

Há livros.

Há mar.

Há conversas.

Há manhãs.

Há noites.

Há coisas absolutamente banais que continuam a ser extraordinárias se nos dermos ao trabalho de reparar nelas.

 

Isto é encanto. E não precisamos de estar felizes para estar encantados. Porque o encanto não é felicidade. É encontrar alguma coisa boa mesmo quando o dia não está a colaborar.

 

É urgente viver encantado.

Não porque a vida seja maravilhosa o tempo inteiro. Mas precisamente porque não é e por a angústia fazer parte do pacote. 

 

Amanhã é outro dia. E a vida tem esta extraordinária falta de sentido dramático.

Continua.

 

📸 Ivailo Tonew

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