MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

A rotina é matreira.

A rotina nunca se apresenta como má da fita. Disfarça-se de equilíbrio, ordem, competência. E auto-justifica-se.

A rotina nunca se apresenta como má da fita. Disfarça-se de equilíbrio, ordem, competência. E auto-justifica-se.

Acordamos à mesma hora. Seguimos os mesmos trajectos. Cumprimos os mesmos rituais diários. Porque, alegadamente, isso permite-nos funcionar melhor. Há eficácia no automatismo. Há conforto na repetição. Mas há também uma erosão lenta. A rotina mina. Gestos pequenos e inofensivos, com efeito acumulado e uma amputação progressiva.

Chamamos-lhe estabilidade, quando na verdade é uma estagnação mascarada.

A rotina, matreira, oferece uma aparência de vida funcional enquanto suga a vitalidade. E é preguiçosa. Porque embora seja cheia de tarefas, não exige de nós verdadeira atenção nem risco.

Viver em piloto automático não é viver com menos esforço. É viver com menos consciência.

Há uma produtividade enganadora no repetido.

Os dias enchem-se de listas, de responsabilidades, de entregas. Mas o tempo está sempre a fugir, e não é por falta de relógio. A rotina doseia o estranho com a mesma competência com que um anestesista doseia a medicação. Mantém-nos funcionais. Acordados o suficiente para produzirmos. Desligados o suficiente para não questionarmos.

O maior truque da rotina é esta ilusão de utilidade. Há muito menos do que julgamos. Organiza, sim, mas empobrece. Garante previsibilidade, mas sufoca as possibilidades. E faz isso com uma elegância discreta. O peso morno dos dias todos iguais e um desconforto difuso que não sabemos bem nomear.

A rotina ensina-nos a adiar. A acreditar que existe um tempo ideal, mais à frente, onde tudo será diferente. 

E a vida vai sendo vivida sempre em espera. Porque o presente, engolido pela repetição, parece provisório.

A rotina é uma forma de resistência passiva à mudança. Ela protege-nos do desconforto que a transformação exige. Porque transformar implica falhar. Desorientar. Perder tempo. 

A rotina, pelo contrário, é um abrigo onde tudo parece estar sob controlo. Mas esse controlo sai caro. Custa-nos a capacidade de ouvir, de adaptar, de inventar.

Quando vivemos demasiado dentro da rotina deixamos de olhar para fora. Deixamos de reparar no que está a mudar. Só vemos o que já conhecemos.  E quando o mundo muda, não chegamos a tempo.

A rotina, com a sua promessa de estabilidade, acaba por ser um risco. Um risco lento, invisível, que só percebemos quando o sentido se perde. Por isso, é preciso contraria-la. Com pequenas incisões diárias. Interrupções. Obstáculos. Coisas que não fazem sentido aparente, mas obrigam à presença. Mudar o caminho. Fazer silêncio onde há barulho. Ouvir sem prever a resposta. Fazer perguntas sem respostas imediatas.

A rotina não se combate com férias. Combate-se com pequenas decisões que restituam ao dia a qualidade do acontecer. Não a queremos eliminar, porque é uma ferramenta,  mas devolvê-la ao seu lugar.

Só quando deixamos de nos esconder atrás da agenda é que a vida volta a ter densidade. Há uma diferença entre passar os dias e vivê-los. Passar os dia é compatível com a rotina. Vivê-los, não. Viver exige fricção. E isso a rotina, matreira, fará tudo para evitar.

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