Um tempero. Não dos que se escolhem, entre o pimentão e a noz-moscada, mas dos que estragam o prato. Por isso é que a vergonha é salgada. A minha, pelo menos. É uma pitada que nunca é pitada. É generosa. Arruina antes de me sentar à mesa.
A essência está no sabor. Forte. Mineral. Difícil de engolir. Salgado porque o sal conserva. E a vergonha também fica muito para além.
A vergonha que nos marca, vem dos pequenos desajustes. Despropositados. Aqueles que, vistos de fora, não contam para nada. Mas vistos de dentro, arruinam.
A vergonha é salgada porque lembra suor. Exposição. O corpo a denunciar aquilo que tentamos esconder. E, como qualquer coisa salgada, fica na língua. Não há digestão rápida.
No fundo, a vergonha é o aviso sonoro do nosso sistema interno a dizer que queríamos estar à altura, mas tropeçámos um bocadinho. Mas tropeçar é normal. É biográfico. E quando é saudável, faz-nos ajustar a postura. Ensina-nos a existir no mundo sem ocupar mais espaço do que o necessário.
Depois há a desajustada. A que se transforma em excesso de sal. Refiro-me à vergonha herdada. A que nos educaram a ter. A vergonha do corpo. Da opinião. Do erro. Do riso alto. Da carreira que não impressiona. Das escolhas que não se explicam. Essa vergonha não é salgada. É salmoura. Uma imersão constante que nos tira a frescura.
A vergonha é salgada, sim. Mas somos nós que decidimos se é tempero ou mar. Se é um aviso ou nos imobiliza. Se é para saborear ou para nos afogar. Mas quando olhamos para trás, percebemos que grande parte das coisas eram pequenas demais. A vergonha distorce a escala. Amplia o que é mínimo. Faz-nos sentir enormes numa plateia que não existe.
Não há drama. Só um reforço de que a vergonha é um ingrediente inevitável. E o segredo está na dose. O suficiente para nos manter alerta. Não o bastante para nos amordaçar. No fim, a vergonha lembra-nos de que somos humanos. Falhamos. Erramos o tom. O passo. O timing. E está tudo bem. Não é bonito. É verdadeiro.
Uma vergonha com sabor a realidade. Porque a realidade, quando é bem vivida, dispensa açúcar mas aguenta um pouco de sal.
A vergonha é salgada.
Um tempero. Não dos que se escolhem, entre o pimentão e a noz-moscada, mas dos que estragam o prato.
