MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

Damos o que somos. E a mais não somos obrigados?!

Cada um distribui o que sabe, mesmo podendo dar diferente.

Uma frase simples. Quase óbvia. Que nos alivia e responsabiliza ao mesmo tempo. É macia e agrada a nossa necessidade de fechar temas sem mexer demasiado no conforto.

Mas vale a pena olhar mais de perto. Sem drama, mas com a frieza lúcida que às vezes falta no dia-a-dia. Herdamos padrões e pressa de sobreviver. Mas a e não damos o que somos, vamos oferecer fragmentos. Dos que aprendemos por imitação. Dos que interiorizámos sem questionar. Dos que nos protegem para não sentirmos.

Damos fragmentos e chamamos-lhes limites. Damos pressa e chamamos-lhe eficiência. Damos distância e chamamos-lhe autonomia. Damos meia presença e chamamos-lhe esforço. Não é intencional. É fidelidade à herança que carregamos sem nunca a termos redesenhado.

Há quem dê pouco porque aprendeu a vida inteira que pouco é seguro. E há quem dê demasiado porque confunde oferecer com a garantia de que não será deixado para trás.
Cada um distribui o que sabe, mesmo podendo dar diferente.

E a mais não é obrigado. Sendo que esta é a parte mais desconcertante. Não por ser mentira, mas porque funciona como um travão. Colocamo-la em discussões e decepções como ponto final. E se calhar está certo. Exigir o impossível é uma forma elegante de crueldade.

E aqui poderíamos descambar para um moralismo cansado [e cansativo] sobre amor-próprio, limites, auto-ajuda. Mas não é preciso. Basta observar as relações. Todas.

Quando alguém dá ausências, ficamos em espera. Quando dá versões editadas de si, ficamos confusos. E quando dá tudo sem
filtro, ficamos sufocados. O equilíbrio está no dar sem esgotar. Receber sem exigir. E sobretudo não tentar corrigir a natureza dos outros para que caibam no que desejamos que sejam.

Descompliquemos. Não apontemos dedos a quem não sabe dar melhor. Apesar de todos termos a responsabilidade de aprender a dar de outra forma. Ou escolher melhor a quem damos.

“As pessoas dão o que são. E a mais não são obrigadas”.

Certo. Mas seremos sempre obrigados a viver com as consequências daquilo que aceitamos.

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