É melhor do que nada. Uma pequena armadilha de resignação. Soa prática, mas o disfarce é controverso. Por trás dela vive uma cultura de aceitação do mínimo. O elogio do pouco. O aplauso ao quase. A normalização da mediocridade disfarçada de gratidão.
Aprendemos a dizer É melhor do que nada quando o dinheiro não chega. Quando o amor não preenche. Quando o tempo livre é escasso. Quando a amizade é morna.
A frase sai leve, mas o efeito é corrosivo. Porque cada vez que a dizemos, um bocado da nossa exigência acomoda-se.
E o problema é precisamente esse. O basta.
O ponto onde a ambição se rende. Onde a vontade se cala. E o instinto de superação adormece.
Na verdade, acho que é apenas uma forma elegante de desistir.
Ser grato pelo que se tem é uma virtude. Mas confundir gratidão com conformismo é um erro. Talvez o maior.
A gratidão olha para o que existe e reconhece valor.
O conformismo olha para o que falta e decide que já não vale a pena tentar.
Uma coisa é respirar fundo e agradecer o copo meio cheio. Outra, é achar que meio copo é tudo o que a vida tem para oferecer.
Melhor do que nada é para quem aceita o que não acrescenta. não desafia.
É para os que já não esperam mais nada. Nem de si nem dos outros. Um suspiro cansado dos que confundem estabilidade com imobilidade.
Vivemos numa época que gosta do bom o suficiente. Produtos que dão para o gasto. Pessoas que até são boas. Resultados que servem.
E, enquanto isso, as possibilidades morrem de tédio. Porque a excelência, o ímpeto, o desejo de mais... são substituídos pela conveniência e pelo medo de perder o pouco que se tem.
Mas o pouco, quando se aceita sem luta, é o início do nada. É o prelúdio da apatia. O berço do conformismo. O anestésico da vida plena. Não é preciso ser ingrato para recusar migalhas. É preciso ser lúcido. Porque gratidão sem ambição é rendição.
Dizer É melhor do que nada é aceitar uma cadeira partida porque ainda dá para sentar. É tolerar uma relação vazia porque pelo menos há alguém. É aguentar um trabalho medíocre porque há contas a pagar.
Tudo isto pode ser verdade. Mas há uma diferença grande entre aceitar uma fase ou adotá-la.
O que nos falta hoje não é esperança. É exigência. A coragem de desejar mais. Não mais coisas. Mais sentido.
O mundo está cheio de pessoas que se contentam. E cada uma delas contribui, sem querer, para a entropia geral. Essa lenta erosão da vitalidade humana.
Porque quem se contenta com pouco perde a capacidade de criar movimento.
Talvez fosse mais honesto trocarmos a frase. Do É melhor do que nada, poderíamos começar a dizer É menos do que devia ser. A primeira conforta. A segunda desperta. Porque a vida não se constrói sobre o que é melhor do que nada. Constrói-se sobre o que realmente existe. Desafia. Mesmo que demore.
O que é melhor do que nada raramente é o que vale a pena.
Agradecer o que se tem pode ser equilibrado. Aceitar o mínimo é desistir em voz baixa. E não há desistência mais triste do que aquela que se disfarça de contentamento.
