MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

Liberdade de expressão. A mais.

Falamos todos ao mesmo tempo. Sem limites. Sem filtros. Sem hierarquias.

Liberdade de expressão. Troféu da modernidade conquistado depois de séculos de censura.
Falamos todos ao mesmo tempo. Sem limites. Sem filtros. Sem hierarquias.
Um campo de batalha onde cada voz procura esmagar as outras.

Mas nem tudo é mau. Denunciam-se abusos. Dá-se palco ao marginal. Iluminam-se zonas escuras da sociedade. É a centelha que permite ao fraco contestar o forte.

Mas há muito que ultrapassámos o ponto óptimo desta conquista. Da liberdade de expressão.
Porque hoje, não é apenas a liberdade de falar. É também liberdade de saturar.

O mesmo microfone que se deu ao oprimido, também se deu ao idiota. E nem sempre é fácil distinguir uma coisa da outra.

Não é a mentira. Essa sempre existiu. É o excesso. O facto de cada palavra competir com milhões de outras, até que a mais sólida se dissolva no meio das descartáveis.

Era da informação, dizem. Indigestão informativa, digo eu. Onde todos opinam sobre tudo e corajosos são os que se calam. Onde a ausência da palavra é ainda mais eloquente.

Achamos que a nossa opinião importa. Mas não é sobre termos direito a falar. É sobre conseguirmos resistir ao impulso de falar sempre.

A liberdade de expressão transformou-se na ditadura da voz. Quem cala é cúmplice. Quem fala é engolido. Quem grita mais alto ganha. Independentemente de estar certo ou não.

Mas será que ainda precisamos da liberdade de expressão no modelo em que a conhecemos? Não. Precisamos de um novo contrato social que distinga palavra que constrói de palavra que apenas polui. E não é censura. É limpeza.
Assim como a sociedade aprendeu a filtrar água para não morrer da doença, talvez tenhamos de aprender a filtrar o discurso para não morrermos de saturação.

Qualquer um pode mudar o mundo com uma frase. Mas qualquer um pode destruí-lo com outra.

Podemos falar?
Claro que sim.

Vale a pena falar?
Corajosos não são nunca os que usam a voz. Mas os que a devolvem ao silêncio.

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