Há uma certa arrogância no segredo.
A ideia de que conseguimos guardar alguma coisa intacta, selada, imune ao mundo. Como se o silêncio fosse um cofre. Como se o tempo não tivesse mãos.
Mas talvez os segredos nunca tenham sido feitos para ficar. Talvez sejam como vapor: acumulam pressão até encontrarem uma fissura. E escapam. Não por fraqueza, mas por destino.
O curioso é que quase nunca são revelados de forma directa. Não há intenção. Há desvios. Coincidências demasiado bem alinhadas para serem acaso. Dizemos que escondemos. Mas o corpo não sabe mentir assim tão bem.
Um segredo não é um objeto. É um movimento. E tudo o que se move quer chegar a algum lado. Talvez por isso existam pessoas que descobrem coisas sem nunca lhes terem sido contadas. Como se estivessem apenas no sítio certo para ouvir o que já estava a ser dito há muito tempo. Só que noutra linguagem.
A verdade é que os segredos não são nossos. Passam por nós. Usam-nos como meio de transporte até se tornarem claros o suficiente para existir fora da sombra. E quando finalmente são ditos, sentimos alívio. Não porque os conseguimos guardar, mas porque deixámos de interromper o seu caminho natural.
Guardar um segredo pode ser, afinal, uma forma de o atrasar. E revelá-lo, o alinhamento com aquilo que já estava inevitavelmente para acontecer.
Talvez os segredos se destinem ao conhecimento público.
A ideia de que conseguimos guardar alguma coisa intacta, selada, imune ao mundo. Como se o silêncio fosse um cofre. Como se o tempo não tivesse mãos.
