MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

Voyeurismo.

Espreitar deixou de ser um ato furtivo. É uma rotina social. Não é preciso um buraco na parede nem cortinados mal fechados. Basta deslizar o dedo no ecrã.

Espreitar deixou de ser um ato furtivo. É uma rotina social. Não é preciso um buraco na parede nem cortinados mal fechados. Basta deslizar o dedo no ecrã.

O voyeurismo já não é um desvio. É um exercício quotidiano com garantia de normalidade.

O curioso é que o condenamos em teoria. É feio admitirmos que gostamos de espreitar. Mas na prática fazemos dele um hábito cada vez mais banal.

Porque espreitamos? Não é curiosidade inocente. É comparação. Ao olharmos para a vida alheia, fazemos um balanço da nossa.

Confirmamos se estamos atrasados. Adiantados. Dentro da média.

Espreitar passou a ser o metro de fita com que medimos a nossa existência.

Espreitamos para perceber se a nossa rotina tem algum interesse. É um mecanismo de regulação social. Estranho, mas orienta.

O que ganhamos com isso? À superfície, entretenimento.

O olhar sobre a vida alheia funciona como uma revista cor-de-rosa que traz um prémio apetitoso. O alívio. Quando vemos alguém tropeçar. A discutir em praça pública. A exibir escolhas duvidosas. Respiramos mais leves. A vida dos outros serve de almofada para a nossa potencial queda.

voyeurismo é um seguro emocional. Porque a miséria dos outros nunca é só deles.

E como o fazemos? Com profissionalismo. Nunca espreitámos com tanto método e tanta tecnologia a favor. Seguimos pessoas que não conhecemos. Deciframos gestos através de fotografias. Inventamos narrativas a partir de meia legenda. Não nos limitamos a observar. Investigamos. Uma autópsia digital da vida dos outros. A dieta. Os horários. As férias. Os amores. Os fracassos. O voyeur moderno pode ser um detetive amador. Mas é altamente eficaz. Exerce o ofício por vício.

O lado mais curioso é que já não espreitamos escondidos. Criámos uma espécie de voyeurismo recíproco. Mostramos partes da nossa vida para podermos ver a dos outros. É um contrato tácito. Eu abro a janela, tu espreitas. Tu abres a tua, eu devolvo. O voyeurismo tornou-se circular. Onde todos somos ao mesmo tempo espectadores e exibidos. Não há inocência nisto. Mostramos o que queremos que seja espreitado. Em troca, reclamamos o direito de observar os outros sem culpa.

E se retirarmos a maquilhagem, fica a contradição.

Passamos a vida a condenar a superficialidade, mas dependemos dela para nos orientarmos.

Passamos a vida a denunciar a invasão de privacidade, mas voluntariamente cedemos a nossa.

voyeurismo não é um acaso da vida moderna. É parte da estrutura da vida contemporânea. Sem ele, perderíamos parte da narrativa coletiva. Espreitar é a forma mais simplória de nos sentirmos incluídos.

No fim, espreitar não é um defeito. Faz parte. A diferença é que agora o fazemos às claras.

Somos todos voyeurs.

E enquanto houver janelas abertas vamos continuar a olhar. Não porque precisamos de saber dos outros, mas porque precisamos desesperadamente de nos vermos através deles.

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