MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

Eu gosto da cidade como exceção.

A cidade é um paradoxo. É o sítio onde estamos mais acompanhados e, ao mesmo tempo, onde aprendemos melhor a estar sozinhos. Talvez seja por isso que eu goste dela como exceção.

Eu gosto da cidade como exceção. Não como regra. Destino obrigatório. Esse lugar onde tudo acontece, tudo se encontra, tudo faz sentido.

Gosto da cidade quando é uma interrupção. Uma falha no meio do meu silêncio.

 

A cidade é estranha. É feita para milhões, mas tem momentos só para mim.

Uma janela iluminada às três da manhã. Um café onde alguém lê sozinho um livro antigo. Um desconhecido que segura a porta durante dois segundos e devolve humanidade a uma manhã apressada.

 

A cidade é um paradoxo. É o sítio onde estamos mais acompanhados e, ao mesmo tempo, onde aprendemos melhor a estar sozinhos. Talvez seja por isso que eu goste dela como exceção.

Porque a cidade em excesso cansa.

O ruído constante transforma-se em vazio. A pressa transforma-se em hábito. As pessoas começam a andar como se estivessem sempre atrasadas para uma vida que nunca chega a acontecer. Há uma "violência" elegante na cidade. Ela oferece tudo e, por isso mesmo, exige escolha. O restaurante. A rua. O rosto.

A cidade é uma máquina gigantesca de possibilidades e nós somos criaturas pequenas. Tentamos não nos perder.

 

Mas há dias em que a cidade funciona. Há dias em que parece ter sido inventada com cuidado.

Quando a luz bate nos prédios ao fim da tarde e transforma betão em nostalgia. Quando uma rua antiga sobrevive entre edifícios novos como um capítulo que nos recusamos a apagar. Quando uma praça deixa de ser apenas um espaço de passagem e se torna um lugar onde vidas acontecem.

 

A cidade é bonita quando deixa de tentar impressionar. Quando não é consumo, trânsito, horários, obrigações. A cidade é bonita quando é apenas cenário.

Gosto das cidades que têm cicatrizes. As que guardam marcas do tempo. Portas gastas. Paredes imperfeitas. Histórias que só alguns sabem. Porque uma cidade sem falhas é uma pessoa sem memória. E é essa a razão pela qual a cidade nunca deve ser casa permanente. Tem de ser visita. Descoberta. Tem de ter sempre uma parte desconhecida.

 

A cidade como exceção é uma espécie de luxo. É entrar nela sabendo que podemos sair. É ter o privilégio de escolher o barulho depois de conhecer o silêncio. É apreciar a confusão porque não estamos presos a ela. Há quem procure a cidade para desaparecer no meio da multidão. Eu prefiro usá-la para me lembrar que existe. Para observar as pequenas coisas que continuam a acontecer apesar da velocidade.

A cidade não é feita apenas dos grandes acontecimentos. É feita de detalhes invisíveis a olho nu. Aquele que espera outro numa esquina. A flor na varanda improvável. A música que escapa de uma janela.

A cidade é um arquivo de vidas anónimas. E é isso que mais gosto nela.

Ela aceita contradições. Permite aventura e descanso. Movimento e pausa. Multidão e isolamento.

Mas como exceção. Sempre como exceção.

 

Porque viver permanentemente dentro da cidade faz-nos esquecer o essencial: também precisamos de espaços onde nada acontece. E, curiosamente, é nesses lugares onde parece que nada acontece que muitas vezes começamos a acontecer nós.

Por isso eu gosto da cidade como se gosta de uma boa conversa. Não todos os dias. Não a todas as horas. Não sem intervalo. Gosto dela quando chega. Quando surpreende. Quando me lembra que o mundo é maior do que a minha rotina.

 

A cidade é uma visita que vale a pena repetir.

Mas nunca uma morada onde eu queira deixar de procurar o caminho de volta.

 

📸 Daniela Travi

 

0