MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

Terceiro mundo somos nós.

Olhando para o Tarrafal, a pobreza não está ali. Falta-lhes dinheiro, é certo. Mas a nós, falta-nos tudo o resto.

Usamos mal a expressão “terceiro mundo”. Referimo-nos a quem tem pouco.

Mas, olhando para o Tarrafal, a pobreza não está ali. Falta-lhes dinheiro, é certo. Mas a nós, falta-nos tudo o resto.

No Tarrafal, a música não é lazer. Faz parte da estrutura.
Acontece sem palco e sem horários.

E nós, habituados a consumir tudo, ficamos sem saber como estar ali. Onde nada é feito para nós, mas tudo nos inclui.
A hospitalidade é o estado natural de Cabo Verde.
Sentamo-nos e já pertencemos.

Depois há as casas.
Cores improváveis. Paredes gastas. Portas abertas.
Uma espécie de pobreza que não pesa. Porque não está escondida nem envergonhada.
É exposta. E, de alguma forma, leve.
O que lá existe não depende do que falta.

Há convívio.
Há tempo.
Há uma forma de estar que não está em disputa constante com o que podia ser melhor.
E isso desarma.

Saímos de lá com a certeza de que o “terceiro mundo” não é sobre recursos. É sobre distância. Distância da vida simples. Direta. Partilhada.

E sob esse critério, o terceiro mundo somos nós.

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