MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

O que seria de nós sem a ajuda do que não existe?

Precisamos do que existe para viver. Mas também precisamos do que ainda não existe para ter para onde ir.

A nossa vida está cheia de coisas que ainda não existem. E ainda bem.

 

Antes da casa, existiu a ideia.

Antes da viagem, existiu o verbo ir.

Antes do livro, existiu uma frase qualquer na cabeça de alguém.

Antes da mudança, existiu a sensação incómoda do isto podia ser diferente.

E é aqui que começa quase tudo. No que ainda não existe.

 

Nós, adultos, temos uma relação curiosa com aquilo que não existe.

Quando somos pequenos, chamamos-lhe imaginação. Quando somos adultos, dizemos que é não ter os pés bem assentes na terra.

Quando somos pequenos, dizemos: Quando for grande vou viver numa casa com uma piscina no telhado. Quando somos adultos, respondemos: Isso não é assim tão simples.

 

E pronto. Em quinze segundos destruímos a arquitetura.

 

A idade traz-nos conhecimento, experiência, e uma capacidade extraordinária para explicar por que razão uma coisa não pode ser feita.

É útil. Mas um problema. Ficamos demasiado bons a dizer não.

Não dá.

Não é altura.

Não tenho tempo.

Não tenho dinheiro.

Não sei fazer.

 

É curioso como o cérebro adulto consegue produzir uma lista de obstáculos em menos tempo do que leva a abrir uma garrafa de champagne.

Porque o que não existe tem uma vantagem. Ainda não teve oportunidade de correr mal.

 

Uma ideia que ainda não aconteceu é perfeita. Não falhou. Não deu prejuízo. Não nos desiludiu. Não teve problemas logísticos. É uma possibilidade em estado puro.

E isso é valioso.

 

Claro que não se trata de acreditar em tudo. Até porque há uma diferença entre imaginação e bom senso.

A imaginação abre portas. O bom senso escolhe por qual entramos.

As duas podem viver perfeitamente na mesma cabeça. Aliás, devem. Porque o que não existe também nos ajuda a suportar o que existe.

 

Nem tudo é possível.

Mas muito mais é possível do que aquilo que estamos habituados a considerar.

E isso muda o modo de olhar para a vida.

 

É aqui que o que não existe entra em cena. Como um empurrão clandestino da esperança.

Não a esperança no sentido cor-de-rosa. Nada de acredita nos teus sonhos e o universo tratará do resto. O universo, tanto quanto sabemos, tem outras preocupações.

Falo da possibilidade. A possibilidade de ainda não sabermos como vai ser.

E muito bom.

 

Se já soubéssemos como vai ser o resto da nossa vida, podíamos todos ir para casa. Não seria necessário continuar a prestar atenção.

Refiro-me a dar mais espaço ao que ainda pode acontecer.

Preservemos a curiosidade.

A vontade.

O entusiasmo.

A capacidade de dizer vamos ver.

A vontade de experimentar.

A disponibilidade para mudar de ideias.

O prazer de começar qualquer coisa sem saber exatamente onde vai dar.

A imaginação.

 

Foi a imaginação que pôs homens na Lua!

Continuemos a imaginar.

 

Não necessariamente à procura de uma vida nova. Simplesmente dar mais vida à vida que já temos.

 

E isso pode ser muito pequeno.

Uma viagem de comboio. 

Uma aula de cerâmica.

Um jardim.

Um livro.

Aprender a fazer pão. Ou finalmente desistir de aprender a fazer pão e aceitar que há coisas que devemos comprar feitas.

 

Tudo serve.

 

Porque o tamanho da ideia é irrelevante. O importante é que exista qualquer coisa lá à frente que ainda não exista hoje.

 

O que seria de nós sem a ajuda do que não existe?

Provavelmente seríamos muito eficientes.

Teríamos tudo organizado. Saberíamos exatamente o que fazer.

Teríamos respostas. 

Planos. 

Calendários.

Objetivos.

E talvez uma vida perfeitamente funcional.

 

Mas faltaria a surpresa.

A possibilidade.

Aquela pequena eletricidade de não saber ainda.

O prazer de pensar que uma coisa pode acontecer.

A vontade de tentar.

A expectativa.

e se.

 

Por isso, não precisamos de esperar que a vida nos dê uma grande razão para mudar.

 

Podemos começar por inventar uma possibilidade. Qualquer coisa que ainda não exista.

Depois vemos.

Pode dar certo. Pode não dar.

Podemos mudar de ideias. Podemos desistir.

Podemos rir-nos daqui a seis meses. Também faz parte.

 

A realidade é importante. Mas ainda bem que não é tudo.

 

Precisamos do que existe para viver. E precisamos do que ainda não existe para ter para onde ir.

📸 Hannah Kate Kelley

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