Numa rua discreta da vila onde vivo, havia uma pequena loja com cheiro a couro e cola quente. Lá dentro, um homem de bata castanha. Era o sapateiro.
Hoje, passo por essa mesma rua, e a loja está fechada.
A montra serve de armazém improvisado para panfletos e pó.
O último sapateiro da vila reformou-se. Ou reformaram-no. Como tantas outras profissões que deixaram de caber nos anúncios de emprego e nos sonhos dos miúdos.
Canalizadores, alfaiates, electricistas, relojoeiros, costureiras. Aqueles que sabiam arranjar as coisas em vez de substituí-las estão a desaparecer. E ao mesmo tempo que perdemos artesãos, ganhamos especialistas em tendências efémeras.
Não se trata de desprezo pelas novas profissões. Mas as profissões tradicionais ensinavam a esperar. Davam continuidade. Havia um saber que passava pelas mãos. Por gerações. Dava-se um jeito e havia orgulho nisso.
Hoje, “damos um jeito noutras coisas”. E está tudo certo. Desde que não nos esqueçamos de que alguém ainda tem de saber como se muda um cano. Como se troca um disjuntor. Como se arranja um telhado.
Estamos a tornar-nos óptimos a lidar com abstracções, mas quem é que nos salva quando a torneira não para de pingar?
O último Sapateiro.
Numa rua discreta da vila onde vivo, havia uma pequena loja com cheiro a couro e cola quente. Lá dentro, um homem de bata castanha. Era o sapateiro.
