MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

Pedimos ao cirurgião para ser mais rápido na operação?

Temos pressa para tudo.

Temos pressa para tudo.

Pressa para sair de casa. Para chegar ao trabalho. Responder ao e-mail. Acabar a reunião. Almoçar. Pagar a conta. Regressar. Pressa para fazer. Para concluir. Estamos sempre a funcionar como se houvesse um cronómetro a marcar-nos os segundos. E a sensação é sempre a mesma. Já estamos atrasados. Só que, na maior parte das vezes, não estamos. É apenas uma ilusão. Repetida tantas vezes que passámos a acreditar.

A pressa tornou-se vício. Um reflexo automático. Tão natural como respirar.

Estamos na fila do supermercado e, mesmo sem nada de urgente para fazer, queremos que a senhora da frente passe as compras depressa, que o multibanco não demore, que a máquina não falhe. Um absurdo. Mas o pé já bate no chão, nervoso.

Exigimos velocidade em coisas onde a rapidez não nos acrescenta. E confundimos rapidez com eficiência. Com relevância. Se é rápido, é bom. Se demora, falha.

Mas experimentemos inverter a lógica.

Pediríamos a um cirurgião para acelerar uma operação só porque temos outras coisas para fazer a seguir? Naturalmente que não. Em áreas onde a consequência é visível, aceitamos o tempo como sinónimo de rigor.

Em tudo o resto vivemos dominados pela ansiedade do imediato.

A pressa rouba valor. Disfarça-se de virtude. Como se viver ofegante fosse produtividade. Não é. É apenas sinal de descontrolo.

A pressa não nos torna mais produtivos. Torna-nos menos presentes. O que nos falta é reaprender a dar tempo às coisas que só acontecem devagar.

Crescer devagar.

Confiar devagar.

Ouvir devagar.

Pensar devagar.

Não há atalhos para estas coisas. E, ironicamente, são as únicas que realmente ficam.

 

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