Temos pressa para tudo.
Pressa para sair de casa. Para chegar ao trabalho. Responder ao e-mail. Acabar a reunião. Almoçar. Pagar a conta. Regressar. Pressa para fazer. Para concluir. Estamos sempre a funcionar como se houvesse um cronómetro a marcar-nos os segundos. E a sensação é sempre a mesma. Já estamos atrasados. Só que, na maior parte das vezes, não estamos. É apenas uma ilusão. Repetida tantas vezes que passámos a acreditar.
A pressa tornou-se vício. Um reflexo automático. Tão natural como respirar.
Estamos na fila do supermercado e, mesmo sem nada de urgente para fazer, queremos que a senhora da frente passe as compras depressa, que o multibanco não demore, que a máquina não falhe. Um absurdo. Mas o pé já bate no chão, nervoso.
Exigimos velocidade em coisas onde a rapidez não nos acrescenta. E confundimos rapidez com eficiência. Com relevância. Se é rápido, é bom. Se demora, falha.
Mas experimentemos inverter a lógica.
Pediríamos a um cirurgião para acelerar uma operação só porque temos outras coisas para fazer a seguir? Naturalmente que não. Em áreas onde a consequência é visível, aceitamos o tempo como sinónimo de rigor.
Em tudo o resto vivemos dominados pela ansiedade do imediato.
A pressa rouba valor. Disfarça-se de virtude. Como se viver ofegante fosse produtividade. Não é. É apenas sinal de descontrolo.
A pressa não nos torna mais produtivos. Torna-nos menos presentes. O que nos falta é reaprender a dar tempo às coisas que só acontecem devagar.
Crescer devagar.
Confiar devagar.
Ouvir devagar.
Pensar devagar.
Não há atalhos para estas coisas. E, ironicamente, são as únicas que realmente ficam.
