Os nossos pais deixam de ser invencíveis. É um momento subtil. Quase não se vê.
O andar mais lento.
Algumas confusões.
A irritação perante o barulho.
O braço que precisa de um apoio para descer as escadas.
As coisas mudaram e não vão voltar atrás. Agora é a nossa mão que se estende. E ninguém nos ensinou como olhar por quem sempre olhou por nós.
O envelhecimento dos nossos pais espelha, de alguma forma, o nosso próprio tempo. Envelhecem eles e uma parte de nós. Num movimento de inversão profundamente humano. A forma como nos aproximamos deles, outra vez. Não como filhos pequenos, mas como adultos atentos, quando são eles que precisam de maior atenção.
Cuidar dos pais é dar continuidade. É o saber esperar. Gerir novas frustrações e engolir o medo da alteração no diagnóstico.
É nos gestos quase invisíveis, que devolvemos o que nos foi dado, com os nossos termos, as nossas falhas, mas com a mesma vontade de proteger.
Um dia, estaremos nós a caminhar devagar. E alguém nos vai estender a mão com a mesma delicadeza. Até lá, vamos aprendendo este novo papel. Sem grandes certezas. Apenas com memórias.
