MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

O taxista da minha vila ainda anda de boina.

Não é estilo. Nem tradição. Anda porque nunca precisou de deixar de andar.

Vivemos num tempo em que tudo tem de ser actualizado. A imagem, o discurso, a forma de estar. Como se existir implicasse uma revisão constante.

Mas ele não.

Entramos no carro e está tudo igual. A boina, o rádio alto, a forma como conduz. Sem necessidade de provar nada.

Não há tentativa de parecer moderno.
Nem esforço para acompanhar.

E é engraçado, nada ali parece ultrapassado. Parece equilibrado, diria.

Talvez porque a maior parte do que mudamos não é evolução.
É mais adaptação.

Mudamos para não ficar para trás.
Para não destoar.
Para não sermos lidos como antigos.

Mas, no meio disso, perdemos o mais importante. O critério.

A boina do taxista da minha vila não é um acessório. É um sinal de que nem tudo precisa de ser melhorado. Que há coisas que podem simplesmente permanecer.

E isso desconcerta. Sem dúvida. Porque o mundo está obcecado com a próxima versão. E o taxista da minha vila ainda está funcional na actual.

Sem pressa de actualizar a própria identidade.

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