O cheiro estrangeiro de uma casa é um relatório imediato sobre o mundo alheio. Comprimido em três segundos de uma inspiração mais profunda.
Um cheiro que com linguagem própria. Um código. Uma espécie de identidade que cada casa emite sem poder controlar. Não há sala neutra. Não há cozinha inodora. Mesmo as casas aparentemente assépticas têm assinatura. Cheiro a detergente. A difusor. A roupa estendida dentro de portas. A madeira antiga que nunca foi completamente restaurada. Cheiro. E não há dois cheiros iguais.
Há um instante que só acontece quando entramos na casa das outras pessoas. O momento em que o ar nos informa que não estamos no nosso território. O cheiro “estrangeiro” de uma casa é um relatório imediato sobre o mundo alheio. Uma espécie de identidade que cada casa emite sem poder controlar.
É que mesmo as casas aparentemente assépticas têm assinatura. E não há dois cheiros iguais.
O cheiro “estrangeiro” não nos dá acesso à intimidade dos outros. Mas devolve-nos o nosso. Escapamos porque convivemos com ele diariamente. Mas o nosso também existe.
Entrar na casa das outras pessoas é uma espécie de auditoria sensorial. O cheiro é o primeiro item, mas não é o único. Prepara-nos o terreno. Sendo a primeira impressão, dá pistas.
Um cheiro a casa que dormiu. A pessoas que cozinharam. A móveis que nunca saíram do lugar. A vida demasiado ocupada. Um cheiro a ordem excessiva.
Há quem diga que o cheiro “estrangeiro” é desconfortável. Não é. É apenas informativo e não devia ser desvalorizado, como dispositivo simples que nos ajuda a identificar fronteiras. Entender modelos de vida distintos dos nossos. Perceber a fricção entre hábitos. Notar como pequenas decisões quotidianas criam ambientes inteiros. Involuntários.
O cheiro “estrangeiro” diz-nos que há mundos paralelos ao nosso que funcionam com igual relevância. Mas com lógicas diferentes.
No regresso a casa, ao nosso cheiro, ao nosso habitat, ajustamos qualquer coisa. Abrimos uma janela. Fechamos outra. Mudamos o sítio de um casaco. Deitamos fora um ambientador que já não faz sentido. Pequenas correcções instintivas. Como se o cheiro “estrangeiro” nos tivesse reposto o foco.
Cada casa tem um cheiro e cada cheiro é uma informação. E sentir o cheiro “estrangeiro” da casa dos outros significa que continuamos vivos dentro das fronteiras que construímos sem dar por isso. E cumpre uma função: é uma das formas mais directas de percebermos que o mundo não gira em torno do nosso próprio ar.
