MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

Os olhos também gravam.

Foi-se o tempo em que os concertos começavam com o barulho das vozes a afinar e terminavam com o som do encore a ecoar no peito.

Foi-se o tempo em que os concertos começavam com o barulho das vozes a afinar e terminavam com o som do encore a ecoar no peito.

Agora, começam com ecrãs acesos e terminam com vídeos tremidos, de som saturado, a ocupar espaço na galeria do telemóvel e nenhum na memória.

Não é só uma questão de registar o momento. É uma compulsão de provar que se esteve lá.

É o reflexo de uma plateia mais interessada em documentar do que em sentir.

Gente a ver o concerto através do ecrã, com o braço esticado e o pescoço torto.

Gente que pagou bilhete para ver ao vivo e depois se contenta com a versão pixelizada daquilo que podia estar a viver com a pele.

E para quê?

Ninguém volta a ver esses vídeos. Sabemos disso.

Estão lá, a envelhecer sem audiência.

São o equivalente às fotografias desfocadas das férias de 2006. Só que nem sequer têm valor nostálgico. Feitos para os outros. Eu também estive aqui.

Entretanto, enquanto se grava, perde-se.

Perde-se o solo improvisado que não vem no álbum.

O corpo arrepiado. O som a entrar. A vibração.

Tudo o que o vídeo não apanha, porque não dá para filmar o que se sente.

E é absurdo.

A maioria de nós cresceu sem esta obsessão.

Fomos aos primeiros concertos sem smartphone.

Gritámos, suámos, chorámos e saímos de lá com a roupa colada ao corpo e a cabeça cheia.

E não havia registo. Só memória. Mas bastava. Porque ainda hoje nos lembramos.

Os olhos gravam. Sempre gravaram. E o cérebro edita melhor do que ninguém.

Corta o que não interessa. Repete o que marcou. Guarda na pasta certa.

As melhores memórias voltam. Com som e com cheiro.

E o desafio é esse, voltar às origens. Estar num concerto e não ter nada para mostrar. Só para contar.

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