Foi-se o tempo em que os concertos começavam com o barulho das vozes a afinar e terminavam com o som do encore a ecoar no peito.
Agora, começam com ecrãs acesos e terminam com vídeos tremidos, de som saturado, a ocupar espaço na galeria do telemóvel e nenhum na memória.
Não é só uma questão de registar o momento. É uma compulsão de provar que se esteve lá.
É o reflexo de uma plateia mais interessada em documentar do que em sentir.
Gente a ver o concerto através do ecrã, com o braço esticado e o pescoço torto.
Gente que pagou bilhete para ver ao vivo e depois se contenta com a versão pixelizada daquilo que podia estar a viver com a pele.
E para quê?
Ninguém volta a ver esses vídeos. Sabemos disso.
Estão lá, a envelhecer sem audiência.
São o equivalente às fotografias desfocadas das férias de 2006. Só que nem sequer têm valor nostálgico. Feitos para os outros. Eu também estive aqui.
Entretanto, enquanto se grava, perde-se.
Perde-se o solo improvisado que não vem no álbum.
O corpo arrepiado. O som a entrar. A vibração.
Tudo o que o vídeo não apanha, porque não dá para filmar o que se sente.
E é absurdo.
A maioria de nós cresceu sem esta obsessão.
Fomos aos primeiros concertos sem smartphone.
Gritámos, suámos, chorámos e saímos de lá com a roupa colada ao corpo e a cabeça cheia.
E não havia registo. Só memória. Mas bastava. Porque ainda hoje nos lembramos.
Os olhos gravam. Sempre gravaram. E o cérebro edita melhor do que ninguém.
Corta o que não interessa. Repete o que marcou. Guarda na pasta certa.
As melhores memórias voltam. Com som e com cheiro.
E o desafio é esse, voltar às origens. Estar num concerto e não ter nada para mostrar. Só para contar.
