Há pessoas que não sabem o que é viver sem plano de fuga.
Uns discutem conforto, produtividade e excesso de estímulo,
outros aprendem a dormir vestidos, a correr sem aviso e a levar a vida inteira dentro de um saco.
A paz não é um direito adquirido.
Acidente geográfico, talvez. Sorte com o código postal.
E não é apenas a pobreza, a guerra ou a tragédia. É o espelho.
Estas pessoas lembram-nos de que a civilização é muito mais frágil do que parece.
Basta um conflito. Um regime. Uma fronteira fechada. O líder errado. Para qualquer vida organizada contribuir para as massas. Com medo.
Refugiados não são “os outros”. São pessoas que não conhecem a paz.
Uns lembram-se do cheiro da infância. Outros têm medo do som que vem a seguir.
Pessoas que associam “casa” a um lugar que já não existe no mapa.
Não fogem se um sítio. Estão a tentar sobreviver a ele.
Refugiado não é um carimbo. É uma consequência.
Uns discutem fronteiras. Outros sabem que o mundo pode acabar num só dia.
E nunca será falta de coragem para permanecer. Mas excesso de guerra.
Pessoas que saem de um instante em que tudo deixou de ser seguro. Não fazem malas. Fazem fugas. Sem certeza. De regresso. Pior, de lugar para regressar.
Um refugiado não é alguém que escolheu atravessar fronteiras.
É alguém que teve de atravessar o próprio colapso do mundo.
O medo não precisa de transporte. Pessoas que se tornaram refugiados por eliminação. Porque tudo o resto deixa de existir.
📸 AFP / Getty Images
