Num tempo em que os adultos discutem guerras, crises, eleições, polarização, algoritmos, urgência permanente e o fim do mundo, os nossos miúdos estão preocupados com coisas muito mais importantes, como encontrar o 247. Trocar um repetido. Ganhar mais um bafão.
E descobrir que os cromos voltaram ao quiosque depois de semanas esgotados.
Talvez seja por isso que continuam a sorrir mais do que nós.
Porque, de vez em quando, a humanidade faz uma pausa. E durante alguns minutos, o planeta não é feito de conflitos, notícias e ansiedade.
É feito de bolsos cheios de cromos, negociações sérias entre crianças e a felicidade absurda de completar mais uma página da caderneta.
Ainda bem.
Pode parecer ridículo agradecer a pedaços de papel colorido numa época em que o mundo parece estar permanentemente ligado ao desastre. E depois há um grupo de miúdos encostado a um muro a discutir se dois repetidos valem uma legend.
Durante algumas semanas, o centro do universo deixa de ser aquilo que está a correr mal no mundo e passa a ser um cromo que falta.
O 128.
O 347.
Aquele que nunca sai.
De repente, o quiosque volta a ser um destino importante. O chão da sala acumula. E a felicidade cabe inteira dentro de uma caderneta.
Nós, adultos, esquecemo-nos de como isto funciona.
A alegria raramente vem dos grandes acontecimentos. Vem das obsessões temporárias que dão cor aos dias.
Da expectativa.
Da procura.
Da troca.
Da conquista.
Felizmente, enquanto nós discutimos tudo o que está errado, há miúdos a celebrar o facto de os cromos terem finalmente regressado ao quiosque de sempre.
E isso é a boa notícia.
Porque significa que, apesar de tudo, ainda existem lugares onde a infância continua a resistir.
E, sinceramente, precisamos muito mais disso do que de mais uma opinião sobre o estado do mundo.
