MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

Emigração.

A verdadeira fronteira não é geográfica. É administrativa, silenciosa e invisível. Encontram na embaixada o primeiro muro.

Podia dizer-se que o projeto de emigrar  começa no aeroporto. 

No adeus à família. No passaporte carimbado. No embarque para uma vida nova. 

Mas, na verdade, para muitos jovens, a verdadeira fronteira não é geográfica. É administrativa, silenciosa e invisível. Encontram na embaixada o primeiro muro.

Já não há sirenes. Nem arame farpado. Nem militares a barrar o caminho. Mas há secretárias. Impressos. Perguntas em português burocrático. Uma sensação estranha de que o destino de uma vida pode ser decidido por uma assinatura que tanto pode ser dada com a ponta da caneta como recusada com a indiferença de um carimbo vermelho.

Não falo de pessoas a fugir de uma guerra ou de um desastre natural. Falo dos jovens que querem estudar. Jovens que querem vir para Portugal. Que não pedem abrigo, pedem conhecimentos.

Que não fogem da sua terra, fogem da falta de horizontes.

E, no entanto, este desejo, legítimo, é encarado com suspeita. Como se querer mais do que o que o país de origem oferece fosse uma ameaça.

A ironia é evidente. Os mesmos países que erguem barreiras para dificultar vistos de estudo são, muitas vezes, os mesmos que proclamam a necessidade de talento internacional. Que defendem a diversidade. Que se orgulham de universidades abertas ao mundo. O mundo está aberto, sim, mas nem sempre para quem mais precisa que esteja.

A migração académica não é só sobre mobilidade individual. É sobre a forma como o mundo decide quem tem direito a sonhar em voz alta e quem deve sonhar em silêncio. Porque, no fundo, o visto não mede apenas intenções de permanência ou provas bancárias. Mede, sobretudo, a confiança que um país deposita na legitimidade do sonho de outro.

Muitos destes jovens saem de casa com a mala, mas também com o peso de uma família inteira que aposta neles como investimento colectivo. Vão estudar por si. Pelos irmãos que ficaram. Pelos pais que acreditam na comunidade e que projectam naquele estudante a esperança de futuro. E quando são recusados à porta de vidro, não é apenas uma pessoa que é barrada. É uma comunidade inteira. Uma memória. Um futuro.

Podíamos pensar nisto como um problema diplomático. Político. Económico. Mas a forma mais clara é vermos o visto como o instrumento que separa os sonhos em duas categorias. Os que vão e os que ficam. E aqui entra a contradição. Muitos de nós assistimos a uma época em que emigrar era visto como coragem. Sacrifício. Ambição. Hoje, o mesmo gesto é tratado como fraude. Intenção oculta. Risco de permanência. De heróis da família passaram a potenciais invasores do mercado de trabalho.

Se há algo a aprender com isto é que talvez seja tempo de reavaliar a ideia de mobilidade. Não como privilégio concedido, mas como capital humano que só floresce quando circula. Porque impedir um jovem de estudar não resolve o problema de origem. Congela, apenas. E o que é congelado, um dia descongela. Com mais força. Mais pressa. Mais frustração.

As fronteiras físicas do mundo estão a encolher. Viajar nunca foi tão rápido e comunicar nunca foi tão fácil. Mas as fronteiras invisíveis, as do papel timbrado, do carimbo seco e do Não preenche os requisitos, essas estão mais altas do que nunca.

No fim, o que podemos dizer sobre isto é que quando negamos o visto a quem quer estudar, não estamos apenas a dizer não a uma pessoa. Estamos a dizer não ao futuro que ela poderia ter construído connosco.

E é possível que um dia percebamos que essa não foi apenas uma barreira para eles. Foi também um atraso para nós.

 

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