MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

Som. O do movimento.

O mar. 

O vento.

As árvores.

A chuva.

As folhas a mexer.

A água a bater nas pedras.

O rio a passar.

É só o movimento a produzir som.

Estão ali. A acontecer.

 

Coisas simples que esquecemos. Ouvimos pouco. Porque vivemos rodeados de sons.

O telemóvel.

A televisão.

O trânsito.

Os eletrodomésticos.

As pessoas.

A nossa cabeça, que consegue ser a que produz mais som.

É som atrás de som. Informação atrás de informação.

 

E achamos que junto da natureza acontece o não acontecer quase nada. Errado. É precisamente aqui que acontece alguma coisa.

 

O mar não tenta impressionar-nos.

A onda vem. Parte. Volta. Vem outra. Parte outra.

O vento passa pelas árvores. As folhas respondem. Os ramos mexem-se.

A água corre.

Nada está a fazer uma apresentação sobre o assunto. É simplesmente movimento.

Sons que não opinam.

 

O mar não quer saber.

O vento não pergunta.

As árvores não estão interessadas.

A chuva não espera pela resposta.

Que alívio.

Um lugar onde nada nos pede nada. Nem para aproveitarmos o momento.

Podemos simplesmente estar.

Ouvir sem fazer nada.

 

Quando nos sentarmos perto do mar, não vamos fotografá-lo imediatamente. Procurar o melhor ângulo. Registar história. Tentar transformar o momento antes de o termos vivido.

Vamos só deixar que o mundo continue a acontecer sem a nossa participação.

É tão bom. Porque é tão leve.

 

Passamos grande parte do tempo a tentar controlar o movimento. E depois aparece uma árvore a mexer-se com o vento.

Afinal há movimento que não precisa de ser controlado.

E, no entanto, tudo acontece.

 

Por isso é que o som da natureza nos faz tão bem. Porque nos devolve mundo.

Um mundo onde as coisas têm ritmo. Onde há dias de vento e dias de calma. Maré cheia e maré vazia. Folhas que caem e folhas que nascem.

Chuva. Sol. Frio. Calor. Movimento. Pausa.

 

A natureza não tem pressa nenhuma. Mas também não está parada.

Aprendamos com ela. Já que confundimos movimento com velocidade. E não são a mesma coisa.

 

Uma coisa pode estar sempre a acontecer sem estar sempre a correr.

 

As árvores crescem devagar.

As marés obedecem ao seu ritmo.

Quando chega a sua altura, as estações mudam. Simplesmente.

Um rio pode parecer lento e, ainda assim, nunca estar no mesmo lugar.

 

Estamos no bom caminho. Finalmente começamos a perceber que, a partir de certa altura, não precisamos de correr tanto.

Não desistimos. Pelo contrário. Acabamos por perceber que há coisas que levam tempo.

Até percebermos o que queremos leva tempo.

 

E enquanto isso acontece, o mundo continua a mexer-se. E eu, eu gosto especialmente do som das árvores quando está vento.

Não há uma melodia certa. Não há repetição exata. Cada rajada muda tudo.

Uma folha mexe. Depois outra. O conjunto cria um som que não se consegue reproduzir exatamente.

É uma espécie de música sem compositor.

 

E é isso que torna a natureza tão interessante. Nunca tenta ser bonita. Nem fotografada. É.

Somos nós que chegamos e percebemos que é extraordinária.

 

O mar também tem esta capacidade.

Podemos olhar para ele durante meia hora. Aparentemente, não aconteceu nada.

E, no entanto, não conseguimos dizer que foi tempo perdido.

Porque há mesmo uma diferença entre não fazer nada e não acontecer nada.

E enquanto olhamos para as ondas, acontece imensa coisa.

Só não há uma tarefa concluída. Mas aprendamos com o mar. Nem tudo o que fazemos precisa de produzir alguma coisa.

 

O som não está separado do movimento. É a sua consequência.

As ondas fazem som porque se movem.

As árvores fazem som porque o vento passa por elas.

As folhas fazem som porque se deslocam.

A chuva faz som porque cai.

O mundo está permanentemente a mexer-se. E nós também. Mesmo quando achamos que estamos parados.

 

É uma boa maneira de olharmos para a vida.

Não como uma linha reta em direção a algum lugar. Mas como um movimento contínuo.

Há coisas que chegam. Outras que partem.

Há fases rápidas. Outras lentas.

Há vento. Há calmaria.

Há dias em que precisamos de andar depressa. Outros em que basta ficar.

 

Não temos de transformar tudo.

Às vezes basta reparar. O mundo não está parado só porque nós parámos.

Pelo contrário.

Continua. Move-se. Respira. Faz barulho.

E, por alguns minutos, nós podemos simplesmente ouvi-lo. Uma das formas mais simples de voltar a estar onde realmente estamos.

Aqui.

Com o mar. Com o vento. Com as árvores. E com o som.

O do movimento.

📸 dailyjugarr.com

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