MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

Embora, vida!

Não ficar à espera que a vida apareça embrulhada em papel de presente. Porque ela nunca aparece assim.

Sem post it colado no espelho da casa de banho.

Tem de ser uma decisão. Banal. Repetida todos os dias. Não ficar à espera que a vida apareça embrulhada em papel de presente.

Nunca aparece assim.

 

A vida chega despenteada. E tantas vezes inconveniente. Chega quando ainda temos os olhos meio fechados e o café a arrefecer. Chega no meio de um dia mau. De uma semana torta. De um ano que não correu como queríamos.

Estamos prontos? Não estamos. Nunca estamos.

 

A nossa versão que está sempre a preparar-se para começar é a versão que nunca começa.

Conhecemos essa versão. Toda a gente conhece. É aquela que pesquisa mais um curso antes de lançar o projeto. Que espera pelo janeiro ideal. Pelo humor certo. Pela semana sem imprevistos. Que lê mais um livro sobre produtividade em vez de produzir. Que planeia a viagem sem comprar o bilhete.

 

E o tempo passa. Não é dramático. Mas a vida passa em fatias finas. Passa enquanto esperamos.

 

Acordar não é abrir os olhos. É percebermos que o único momento que temos é este. É agora. Sempre agora. E agora não é uma janela de oportunidade. É a única janela que existe.

 

Fazer só nos exige que paremos de pedir permissão ao medo. Que contemos menos com a inspiração, hóspede irregular e pouco fiável, e contemos mais com a disciplina. E viver, viver a sério. Não a versão que passamos anos a construir para nada correr mal.  

 

É só pragmatismo. Brutal. Porque o tempo não volta. Os dias não se recuperam e o arrependimento de não ter vivido pesa muito mais do que qualquer falhanço.

VIVER conjuga-se todos os dias. No presente. Com o que temos. Onde estamos.

Por isso, sem grandes ponderações, vamos embora.

📸 Turtle Bay, Woody Brown Surfer at 89

0