Não vale a pena pensar. É ir. Entrar. Dar um mergulho no mar é a resposta ao excesso.
De calor. De ruído. De tensão.
Água fria. O corpo não quer. Mas há dias em que isso não interessa. Dias em que tudo está colado.
Um peso sem nome.
A água fria entra. Como um murro. A pele arrepia. A respiração falha. O impulso é sair. Só mais um bocadinho e acontece qualquer coisa.
A água fria interrompe tudo. E é exactamente por isso que funciona. O peito abre. Os ombros descem. O que estava preso começa a soltar-se.
O corpo responde à água. À mudança de temperatura. Ao embate. A cabeça acompanha. E tudo o resto pára. Depois, o alívio.
Já não carregamos absolutamente nada. O corpo fica solto. Uns segundos. Porque a água fria leva tudo com ela. E é mais do que suficiente.
A água recebe-nos. E nessa entrega fria, onde os músculos se contraem e o ar falta por um segundo, estão tréguas. Aquelas que nunca nos damos.
Cá fora, o mundo continua igual. Mas nós estamos mais leves. Mais despertos. A cabeça mais clara. A respiração mais funda.
Não é preciso nada de especial. As coisas boas serão sempre de graça. Basta que seja mar. Que seja sal. Um mergulho bem dado interrompe a dormência. Acorda-nos. O que estava a mais foi-se embora.
Deviamos procurar o mar com urgência. Não diria para nadar. Mas para anestesiar. Debaixo de água, não respondemos a nada. Não falamos. Nem sequer vemos com nitidez.
As vozes lá fora ficam lá fora. Um recolhimento que nos devia ser precioso.
Há poucos prazeres tão imediatos quanto o de mergulhar.
O único modo de calar o mundo sem termos de nos ausentar. Basta mergulhar. Ir ao fundo e voltar.
E voltamos à tona. Sempre. Mas há qualquer coisa diferente no modo como subimos. Prontos para continuar.
