MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

Mergulho. No mar.

O corpo responde à água. À mudança de temperatura. Ao embate. A cabeça acompanha. E tudo o resto pára. Depois, o alívio.​ 

Não vale a pena pensar. É ir. Entrar.​ Dar um mergulho no mar é a resposta ao excesso.

De calor.​ De ruído.​ De tensão.

Água fria. O corpo não quer. Mas há dias em que isso não interessa. Dias em que tudo está colado.

​Um peso sem nome. 

A água fria entra. Como um murro. A pele arrepia. A respiração falha. O impulso é sair. S​ó mais um bocadinho e acontece qualquer coisa.​ 

A água fria interrompe tudo. E é exactamente por isso que funciona. O peito abre. Os ombros descem. O que estava preso começa a soltar-se.

O corpo responde à água. À mudança de temperatura. Ao embate. A cabeça acompanha. E tudo o resto pára. Depois, o alívio.​ 

J​á não carregamos absolutamente nada. O corpo ​fica solto. Uns segundos. Porque a água fria leva tudo com ela. E é mais do que suficiente.

A água recebe-nos. E nessa entrega fria, onde os músculos se contraem e o ar falta por um segundo, estão tréguas​. Aquelas que nunca nos damos.

​Cá fora​, o mundo continua igual. Mas nós estamos mais leves. Mais despertos. A cabeça mais clara. A respiração mais funda. 

Não é preciso nada de especial. As coisas boas serão sempre de graça. Basta que seja mar. Que seja sal. Um mergulho bem dado interrompe a dormência. Acorda-nos. O que estava a mais foi-se embora.

Deviamos procurar o mar com urgência. Não diria para nadar. Mas para anestesiar. Debaixo de água, não respondemos a nada. Não falamos. Nem​ sequer vemos com nitidez.

As vozes lá fora ficam lá fora. Um recolhimento que nos devia ser precioso.

Há poucos prazeres tão imediatos quanto o de mergulhar. 

O único modo de calar o mundo sem termos de nos ausentar. Basta mergulhar. Ir ao fundo e voltar.

E voltamos à tona. Sempre. Mas há qualquer coisa diferente no modo como subimos. Prontos para continuar.

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