MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

É preciso muito tempo para aprendermos a ser breves.

Porque a verdadeira brevidade não nasce da falta. Nasce da escolha.

Irónico. Parece uma contradição. Um jogo de palavras, como se alguém tivesse trocado as peças do puzzle de propósito. 

Afinal, ser breve não deveria ser simples? Não bastaria cortar? Retirar? Encurtar? Apagar tudo aquilo que parece excesso?

 

Não.

A verdadeira brevidade não nasce da falta. Nasce da escolha.

Uma frase curta pode ser vazia. Uma frase longa pode ser precisa. A diferença está naquilo que sobra quando tudo o que não era essencial desaparece. E é isto.

 

Passamos parte da vida a acrescentar.

Acrescentamos palavras com receio de que uma ideia não seja compreendida. Justificações porque queremos encaixar. Detalhes porque confundimos quantidade com profundidade. Camadas porque acreditamos que quanto mais mostramos, mais somos vistos.

 

Mas não. O excesso não revela. Pelo contrário, esconde.

 

A infância é talvez o único momento em que somos naturalmente breves.

Os miúdos não constroem uma teoria sobre o mundo. Perguntam: “porquê?”

Vivem numa espécie de raciocínio sem desperdício. As emoções chegam diretas ao ponto, sem a burocracia que vamos acumulando com os anos na linguagem das explicações.

 

A sociedade moderna tem um problema curioso com a brevidade.

Transformar uma floresta numa semente.

Blaise Pascal escreveu uma frase curiosa: “Teria escrito uma carta mais curta, mas não tive tempo.”

 

Ser breve exige saber o que importa.

E essa é a questão. Nem sempre sabemos. Porque somos convidados a ter opinião sobre tudo. E imediatamente.

Reagir. Comentar. Responder.

 

Mas a brevidade precisa de tempo. Para pensar. Para retirar. Para perceber que nem tudo merece entrar na frase final. Por isso é que há uma diferença entre falar pouco e ser breve.

Falar pouco pode ser ausência. Ser breve é presença. Já que a brevidade não se mede pelo número de palavras. Mede-se pela quantidade de ruído eliminado.

 

E a brevidade também é uma forma de respeito.

Respeito pelo tempo dos outros. Pelo pensamento dos outros. Pela atenção dos outros.

Uma frase bem construída é uma espécie de quarto silencioso dentro de uma casa cheia de ruído. Uma ideia clara, um ato de generosidade.

 

No fim, a brevidade não é uma falta de palavras. É o resultado de ter encontrado as certas.

Retirar o excesso até ficar apenas aquilo que continua de pé.

 

 

0