Não estávamos permanentemente disponíveis.
Os carros velhos. A gasolina no limite. Uma ideia irresponsável às duas da manhã.
Perdíamo-nos mais. Íamos.
Banhos no mar à noite. Toalhas húmidas no banco de trás. O sal a secar na pele até de manhã.
Ninguém tirava fotografias.
Ninguém fazia stories.
As memórias sobreviviam na mesma.
Conversas gigantes em mesas pequenas. Cigarros acesos para prolongar debates.
Na faculdade aprendíamos pouco sobre o mercado de trabalho e muito sobre pessoas.
Porque as opiniões não vinham em enxame.
O tédio existia. A cabeça funcionava melhor.
A vida não era rápida. Como hoje. Otimizada. Sempre a acontecer.
Nos anos 90, desperdiçávamo-la. De forma magnífica. Tínhamos tempo útil.
As noites sem planos. As boleias. Os cafés intermináveis. As cassetes.
A liberdade sem localização em tempo real.
Nos anos 90, a vida não era perfeita.
Era só estarmos onde estávamos. Porque não estávamos permanentemente disponíveis.
Esta não é uma saudade dos anos 90. Mas da leveza que era não sermos interrompidos.
Se eu pudesse, vivia em câmera lenta. Ou voltava no tempo para os anos 90.
Esta não é uma saudade dos anos 90. Mas da leveza que era não sermos interrompidos.
