É inquietante. Os miúdos de hoje pedem para ficar em casa num sábado à tarde, em vez de pedirem para ir para a rua.
Não porque estejam cansados ou adoentados. Mas porque não sabem o que fazer fora de casa.
A rua é um espaço de liberdade e caos. Tornou-se um lugar estranho. Os miúdos estão mais gordss, sim. Mas mais do que isso, estão pesados.
O peso de um corpo que não se mexe. Que se arrasta.
Porque temos uma geração que não aprendeu a brincar com o mundo. Apenas a interagir com um ecrã.
E fomos nós que lho demos. Não porque eles pediram, mas porque era mais fácil.
Em vez de educar, distraímos. Em vez de se aborrecerem, anestesiamo-los.
A um ritmo de toque e deslize, os nossos filhos foram-se desconectando do corpo. Da natureza. Da própria imaginação.
E ficamos espantados com a falta de resiliência. O medo de falhar. A ausência de criatividade.
Mas como poderiam ter se tudo à sua volta foi construído para evitar o desconforto? À primeira reclamação. À segunda birra. Ao terceiro minuto de tédio.
Deixámos de lhes dar o tempo e o espaço do não fazer nada, esse lugar fértil onde nascem as ideias.
A infância que lhes oferecemos hoje não tem obstáculos. E uma infância sem obstáculos não ensina o atrito. Nem a resistência. Nem o prazer.
Os miúdos já não sabem cair. Não sabem tropeçar. Não sabem levantar-se sozinhos.
Somos pais-helicóptero. Mas somos também pais-escudo. Antecipamos todas as dores. Apagamos todos os riscos. Colocamos redes antes mesmo de haver salto.
Criámos crianças que não conhecem a coragem porque nunca sentiram medo.
Nem sabem o valor de um arranhão porque nunca andaram num escorrega gasto pelo tempo.
É fácil culpar os ecrãs. Mas o problema não está só neles. Está num sistema que nos tirou tempo. Paciência. Sentido de comunidade.
Porque brincar na rua não é só sobre correr e saltar. É espírito de grupo. Ausência de adultos. Hierarquia espontânea. Regras inventadas. Jogos que duram dias, sem botões de pausa.
A rua ensina compromisso. Liderança. Negociação. Essencialmente, ensino o risco.
Hoje, a infância acontece em quartos individuais, com headphones e silêncio.
Mas eles sabem o que precisam.
Quando vão à praia ou ao campo, eles correm. No início, hesitam. Mas passado pouco tempo estão aos gritos, sujos, a inventar jogos com pedras e paus.
O corpo lembra-se.
Só que não lhes damos esse tempo. Nem liberdade.
E vão crescendo rodeados pelos ângulos certos no jogo. Sem conhecerem a força do movimento.
Devolver a infância é mais do que tirar o tablet da mão. É deixar cair. É aceitar o risco. É permitir o aborrecimento. É confiar na capacidade que eles têm para se reinventarem com tempo, com espaço, com liberdade.
Com liberdade verdadeira. Aquela que não é vigiada de cinco em cinco minutos.
A melhor cidade para uma criança é aquela onde ela se pode perder. [ Francesco Tonucci, Pedagogo ]
Que cidade estamos a construir? Que infância estamos a permitir? Queremos filhos seguros, saudáveis, felizes. Mas, para isso, temos de estar dispostos a vê-los sujos, cansados, magoados. Cheios de histórias.
Devolvermos-lhes o mundo.
