MARIA CLEMENTINA ®

Escrevo para pôr ordem no barulho e desarrumar as certezas.

Que o cancro morra de cancro.

O cancro nasce de dentro. Do próprio corpo. Das mesmas engrenagens que nos mantêm vivos. E é por isso que não se vai embora.

Porque é que o cancro não se vai embora?

Não é um inimigo externo que um dia vamos erradicar com uma única vacina. Não é uma praga que se espalhou na humanidade e que, eliminada a fonte, desaparecerá do mapa.

O cancro nasce de dentro. Do próprio corpo. Das mesmas engrenagens que nos mantêm vivos. E é por isso que não se vai embora.

As células que o originam não são invasoras. São as nossas. O que muda é a forma como quebram as regras.

Se o corpo é uma cidade, o cancro é o cidadão que decide não respeitar o trânsito. Não pagar impostos. Não obedecer. Multiplica-se. Expande-se. Ocupa o espaço comum como se lhe pertencesse por direito. E como não há polícia suficiente para travar a desordem, a cidade degrada-se.

O que nos custa aceitar é que esse infrator não veio de fora. Esteve sempre connosco. Silencioso até ao momento em que escolheu revelar-se.

Durante décadas alimentou-se a ideia de que o cancro um dia teria uma cura definitiva. Uma espécie de fim da história. Mas essa esperança assenta numa visão simplista. A ciência sabe hoje que cada cancro é único. Duas pessoas com o mesmo diagnóstico, no mesmo órgão, podem ter doenças radicalmente diferentes. Porque o código genético das células rebeldes nunca se repete da mesma forma. A palavra cancro é um guarda-chuva que cobre centenas de doenças distintas. É como tentar encontrar uma única chave para abrir centenas de cofres desenhados de forma diferente.

Mas há outra razão pela qual o cancro não nos deixa em paz. Porque a vida é feita de falhas. A reprodução celular é um processo de precisão extraordinária, mas não é perfeita. Todos os dias, milhares de células acumulam erros. O corpo criou sistemas de reparação, vigilância e autodestruição celular para manter o equilíbrio, mas basta uma falha nesse policiamento para que a desordem ganhe terreno. Não é azar. Não é destino. É assim. Quanto mais vivemos, mais vezes lançamos os dados.

É aqui que entramos em cena. Nunca a humanidade viveu tanto tempo como agora. Nunca houve tanta gente a chegar aos 60, 70, 80 anos. Essa longevidade é, em si mesma, uma das razões do aumento de casos de cancro. O cancro é, em muitos sentidos, o preço da longevidade. Não se trata de uma epidemia repentina. Trata-se de uma consequência quase inevitável de termos aprendido a sobreviver a tantas outras doenças.

Mas limitar a explicação ao envelhecimento é a meia-verdade.

A forma como vivemos, trabalhamos e consumimos acrescenta camadas ao problema. Ambientes saturados de químicos. Alimentação processada. Stress crónico. Sedentarismo. Todos estes factores aumentam a probabilidade das células se desviarem do caminho. Não criam o cancro por si só. Mas oferecem-lhe um terreno fértil. Somos uma sociedade que cultiva a ilusão do controlo. Comemos bio. Fazemos rastreios. Corremos maratonas. Como se fosse possível blindar o corpo contra todas as falhas. Nunca será.

Então, porque é que o cancro não se vai embora?

Porque é estrutural.

Porque está inscrito na própria biologia da vida.

Porque cada corpo humano é uma equação em constante risco de erro.

E porque o progresso da ciência é, e será sempre, mais lento do que a multiplicação acelerada das células malignas.

Não vamos esperar pela utopia da erradicação. Mas mudar a forma como pensamos o cancro. Em vez de procurarmos o milagre universal, aceitemos que se trata de uma batalha múltipla, que exige personalização, adaptação, novas linguagens de tratamento. O futuro não será uma pílula única, mas terapias ajustadas a cada pessoa, a cada mutação, a cada circunstância.

E o mais difícil é aprendermos a viver com a ideia de que o cancro nunca desaparecerá. Tal como a falha e a dúvida fazem parte da vida. O objectivo não é expulsar para sempre o intruso, mas reduzir o seu poder. Prolongar o tempo. Dar qualidade aos dias. O que podemos fazer, e é muito, é não lhe dar terreno fértil. Não lhe dar silêncio. Não lhe dar resignação. E conquistarmos paz. Porque a paz completa, o cancro nunca nos dará.

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